Matéria publicada por Björn Hagemann e Fernanda Mayol no jornal Valor Econômico.

É hora de repensar a força de trabalho

A quarta revolução industrial está transformando setores inteiros. Nos próximos anos, veremos uma mudança clara nos empregos resultante das inovações tecnológicas como inteligência artificial, internet das coisas e automação. Basta imaginar o impacto que carros sem motoristas terão no segmento de transporte e mobilidade. Além de preparar novos talentos para lidar com um mercado de trabalho totalmente diferente, essa nova era exigirá, principalmente, uma grande requalificação da força de trabalho atual.


As habilidades com as quais as empresas contam hoje não serão suficientes para o amanhã. Estudos da McKinsey mostram que 30% dos executivos das grandes companhias já preveem que manter o desempenho ficará mais difícil devido à lacuna de pessoas com as habilidades necessárias para o trabalho do futuro. Isso, inclusive, já começa a se evidenciar. Apesar dos índices alarmantes de desemprego no Brasil, encontrar pessoas para preencher vagas está se tornando uma tarefa complexa para os empregadores. Uma pesquisa recente realizada pela McKinsey mostra que 68% dos gerentes têm dificuldades de encontrar os profissionais com as aptidões necessárias para suas companhias.

Outro estudo do LinkedIn revela que as principais competências exigidas pelos empregadores no país se referem às tecnologias digitais, como análise e mineração de dados, arquitetura da web e desenvolvimento mobile. Além disso, a demanda pelas "habilidades do futuro" já é quatro vezes maior do que a oferta de pessoas que saibam trabalhar com metodologias ágeis (forma de trabalho que busca dar maior eficiência aos processos) e duas vezes maior do que a oferta de profissionais que saibam lidar com big data.

Pesquisas da McKinsey estimam que até 40% da força de trabalho precisará fazer uma transição de atividade nos próximos dez anos. Áreas muito afetadas, por exemplo, serão as de preparo de alimentos, vendas em lojas, caixa, controle de estoque, assistência e suporte em escritório e atendimento ao cliente. Por isso, a requalificação é fundamental para construir novas habilidades e ajudar as pessoas a se adaptarem para as mudanças significativas na natureza do seu trabalho atual.

Muitas empresas estão descobrindo que é do seu próprio interesse - assim como parte de sua responsabilidade social - treinar e preparar trabalhadores para um novo mercado de trabalho. A partir do conceito de equivalência de funções, é possível traçar um plano e criar estratégias para que as companhias não sejam pegas de surpresa pelos efeitos de avançarem na era do 4.0. Sabe-se que atividades operacionais serão facilmente substituídas por postos que vão exigir estratégia, inovação, proximidade com clientes e criação de tecnologia.

Um exemplo interessante é o de um banco que, ao realizar um grande processo de digitalização, percebeu que quase 10 mil funcionários perderiam funções por causa da automação. No lugar de eliminar esta força de trabalho, a empresa trabalhou para entender quais seriam as futuras atividades e habilidades necessárias neste novo contexto tecnológico da companhia. Ao determinar isso, eles conseguiram criar programas de requalificação direcionados, incluindo o ensino de capacidades como digital e analytics, possibilitando que esses funcionários fizessem parte do futuro da empresa.

Outro caso é o de uma petroleira asiática com mais de 50 mil funcionários. Sabendo que a companhia seria profundamente afetada pelas mudanças do trabalho, eles não só começaram a recapacitar pessoas, como também fizeram uma grande transformação operacional, envolvendo áreas que foram desde as refinarias até os recursos humanos e as finanças corporativas. Talentos digitais foram realocados em áreas onde seu conhecimento seria mais estratégico, processos de tomada de decisão simplificados e até mesmo os contratos de trabalho sofreram modificações, dando mais flexibilidade para as pessoas.

No Brasil, já vemos as empresas começarem a se movimentar em direção parecida. Em uma pesquisa recente com 100 companhias brasileiras, descobrimos que 75% dos executivos veem um retorno positivo em investir no aprimoramento ou criação de novas capacidades para melhorar o desempenho de seus times. Algumas grandes empresas estão criando escolas de recapacitação internas, enquanto as de médio porte utilizam parcerias, como o Sistema S.

À medida que a digitalização remodela as empresas, a única maneira de não se perder os ganhos de produtividade trazidos pela tecnologia é ter as pessoas e os processos corretos para capturá-los. Administrar bem essa transição não é apenas um bem social, é um imperativo competitivo. É por isso que 64% dos executivos que entrevistamos ao redor do globo disseram que a principal razão pela qual eles estavam dispostos a investir em requalificação era "aumentar a produtividade dos funcionários".

Já vemos uma realidade em que os trabalhadores com as habilidades desejadas estão em falta em lugares onde há vagas, enquanto regiões com altos níveis de desemprego têm pouca geração de oportunidades. A tendência é que essa situação se torne ainda mais acentuada, agravando índices de desemprego e elevando custos de produção em locais onde há menos tecnologia e baixa produtividade. É possível, inclusive, que o problema se agrave com debandada de empresários, em busca de mão de obra qualificada em outras partes do globo, uma vez que só mão de obra barata já não será uma vantagem competitiva.

As empresas estarão na linha de frente das grandes transformações do emprego. Isso exigirá que elas reorganizem seus processos de negócio, reavaliem suas estratégias de talentos e necessidades de força de trabalho, considerando cuidadosamente quais indivíduos são necessários, quais podem ser realocados em outros trabalhos e onde novos talentos podem ser alocados.

Björn Hagemann é sócio da McKinsey e líder da prática de Organização na América Latina

Fernanda Mayol é sócia da McKinsey.

Disponível em <https://www.valor.com.br/…/e-hora-de-repensar-forca-de-trab…> Acessado em 12 agos. 2019.